Faz pouco tempo que conheço o seu trabalho, mas tornei-me fã de carteirinha ao ouvir os primeiros acordes do seu bandolim no CD Sonhos, o primeiro dos sete já gravados até hoje. Isso aconteceu em 2003 e, desde então, nunca mais parei de ouvir e me deliciar com o bandolim de Aleh Ferreira.

Sonhos, gravado em 1993
O violão entrou na vida deste paulista nascido sob o signo de escorpião, aos seis anos. O cavaquinho chegou para ele aos nove e o bandolim, seu companheiro inseparável até hoje, aos 11. Com 13 anos já era profissional, dividindo o palco com gênios do quilate de Altamiro Carrilho, Nelson Cavaquinho, Noite Ilustrada, Ataulfo Alves, Moreira da Silva, Demônios da Garoa e tantos outros nomes da música brasileira. O filho de "seu" Renerio e "dona" Lavize teria um futuro brilhante como instrumentista e compositor.
O primeiro CD foi gravado em 1993, com obras suas e de autores variados. De lá para cá são sete Cd’s, com destaque para o álbum Aleh Ferreira Ao Vivo, gravado ao vivo no projeto instrumental SESC Paulista. Hoje, este grande bandolinista já soma mais de 60 composições próprias.
O Trio Quintessência foi fundado por ele em 2001, levando-o aos EUA e à Rússia para uma série de apresentações. A direção da Orquestra Sinfônica de Moscou descobriu o compositor e seus concertos para flauta e para clarinete foram interpretados pela orquestra e devidamente registrados em CD. Um espetáculo! E em 2007, a convite do maestro Cláudio Cruz, tocou ao lado da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto e do cantor Toquinho.

Aleh e Altamiro Carrilho
As várias e marcantes experiências resultaram num trabalho diversificado e de grande valor musical. Afinal, uma das características dos escorpianos é transformar e regenerar todas as coisas. E é isso que ele faz quando apresenta o choro nas mais diversificadas combinações instrumentais. Ousando, criando e inovando, Aleh surpreende de todas as formas. Seus arranjos são simplesmente fantásticos!
Com bandolim e orquestra sinfônica, Aleh toca clássicos da música brasileira acompanhado de uma orquestra sinfônica, com arranjos de sua autoria. A diversidade de timbres da orquestra unida ao som do bandolim mistura o popular e o erudito, tornando o show atrativo e dinâmico.
Acompanhado de um violão seis cordas e percussão, Aleh explora o repertório da MPB de forma dinâmica e virtuosística. Com esta formação o compositor foi um dos 24 selecionados para o 7.o Prêmio Visa, dentre mais de 500 inscritos em todo o Brasil.
A formação de bandolim, violão, cavaquinho e pandeiro dá ao show uma visão tradicional do Choro, tocado como foi criado. Aqui, ele caminha pelo repertório de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, e outros grandes compositores do gênero.

Aleh e Toquinho
No Quarteto de Cordas clássico o bandolim é acompanhado por dois violinos, viola e violoncelo, resultando num magnífico trabalho onde são executadas pérolas da MPB como Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, Qui nem Jiló, de Luiz Gonzaga e Sampa, de Caetano Veloso, dentre outras.
Já a união incomum do bandolim, violão e violoncelo, formação do Trio Quintessência, torna o show alegre e virtuosístico. No repertório constam gêneros brasileiros e de outros países, como o Tango, o Jazz e o Flamenco. Este show encerrou o IV Festival de Música Ibero-americano na sala Tchaikowsky, em Moscou, na Rússia.

O bandolim de Jacob foi parar nas mãos de Aleh Ferreira
Mas a maior emoção de toda a brilhante carreira de Aleh Ferreira aconteceu em 21 de dezembro de 2008, quando num show em homenagem à Jacob do Bandolim, em São Carlos, interior de São Paulo, a filha do mestre do bandolim, Elena Bitencourt, passou às mãos de Aleh o instrumento que pertenceu a seu pai. Nesta entrevista, ele fala sobre o Choro, sobre seus projetos e sobre a MPB, além de desvendar suas preferências musicais e pessoais.
Com vocês, Aleh Ferreira, um instrumentista e compositor arrojado e audacioso. Um espetáculo!
Como, quando e onde despertou o interesse pelo bandolim?
No momento em que meu pai me levou à fábrica de violões Del Vecchio, na Rua Aurora, Centro de São Paulo. Lá ouvi pela primeira vez o som do bandolim, tocado pelo querido e saudoso Evandro do Bandolim. Tinha 11 anos de idade e a partir desse dia não parei mais de tocar.
Em sua opinião, o que deve ser feito para que a população tenha mais acesso ao Choro e para que este gênero musical possa livrar-se do estigma de ser elitizado?
Acho que o Ministério da Comunicação deveria exigir das emissoras de TV a transmissão de programas dedicados não só ao Choro, mas à cultura brasileira em geral. Não é pedir muito, pois quem dá a concessão para as emissoras é o governo através deste ministério e, quando é do interesse dele, ele obriga as emissoras a transmitir o que querem, como é o caso do horário eleitoral gratuito, baseando-se em Lei. Enfim acho que o governo deveria aprovar uma Lei obrigando todas as emissoras a dedicar 1 hora (ao menos 1 hora) de sua programação à cultura da qual faz parte o Choro.
Você acumula experiências incríveis com vários estilos de apresentação. Como é experimentar vários instrumentos no Choro, como viola, violinos, violoncelos e outros?
É uma delícia! Quando experimentamos instrumentos diversos no Choro, saindo da formação tradicional (violão, cavaquinho e pandeiro), damos oportunidades para que outros músicos conheçam o Choro. E, em geral, eles se surpreendem com a riqueza deste gênero.
Existe previsão para o lançamento do próximo CD?
Previsão não, mas projeto sim, e muitos. Um deles é gravar novas músicas de minha autoria com a Orquestra Filarmônica de São Petesburgo, da Rússia. Trata-se de um projeto ousado que requer uma boa captação de recursos de patrocinadores.
Qual é a sua impressão sobre o atual cenário da música brasileira? (pergunta feita por Lais Amaral)
Tenho a impressão da ausência de amor nas atuais composições, o que muito me incomoda. Não mais vejo um compositor criar uma peça com sentimento. Vejo as pessoas fazendo "música" pensando em agradar a um público "X" para se projetarem. Ao contrário dos sambas de antes, as novas composições são feitas para entrar no mercado da música descartável. Fico imaginando Cartola compondo "O Mundo é um Moinho", porque sua filha, muito nova, decidiu sair de casa e viver sua própria vida, ou Jacob do Bandolim compondo "De coração a coração" para seu cardiologista, após um infarto. Isso para mim é o máximo do sentimento numa composição. Claro que ainda existem compositores deste nível, mas eles não aparecem.
Nome: Alexandre Ferreira
Local e data de nascimento: São Paulo, 27 de Outubro de 1966
Cidade onde mora: São Paulo
Formação: autodidata
Estado civil: separado
Filhos: um filho com 11 anos
Instrumentos que toca: violão, cavaquinho e bandolim
Experiência profissional: ter acompanhado a gravação de 2 concertos de minha autoria pela Oquestra Sinfônica de Moscou, na Rússia.
Compositor preferido: hum..... difícil dizer, pois são tantos.....
No Choro: Pixinguinha
No bandolim: Jacob
Na flauta: Altamiro Carrilho
Na música Erudita: Tchaikowsky
Músico: aquele que lê uma partitura.
Instrumentista: aquele que toca com a alma.
Música preferida: De Coração a Coração (Jacob do Bandolim)
Momento de maior emoção em sua vida: ter homenageado Jacob do Bandolim, tocando com seu próprio instrumento. Esse acontecimento foi grandioso para mim enchendo-me de vaidade, mas acima de tudo gratidão. Passei a minha vida inteira ouvindo o som deste bandolim desde meus 11 anos de idade. Nunca imaginei que ele cairia em minhas mãos. Meu Deus, era o mesmo bandolim que tocou com Elizeth Cardoso naquele histórico show no Teatro João Caetano, no Rio, e que gravou vários LPs do querido mestre. Quando Elena Bittencourt entregou o bandolim de seu pai para mim, confesso que me senti mais homenageado que Jacob. Sabia que toda a escola bandolinística do Brasil tinha começado ali, naquele bandolim.
Cd's: Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e Zimbo Trio ao Vivo
DVD's? sem preferência
Cantor: Noite Ilustrada
Cantora: Elza Soares
Grupo musical: Trio Quintessência
Um sonho: ver um Brasil melhor e mais justo com seus verdadeiros artistas.
Cor: azul
Esporte que admira: tênis
Esporte que pratica: caminhada
Praia ou montanha: Montanha com vista para a praia.
Filme: Amor Além da Vida
Lugar para namorar: todos! Namorar é bom...
Cidade: Rio de Janeiro
País: Brasil
4 comentários:
Nice, sou uma fã antiga deste grande músico e instrumentista. Acompanho a sua carreira desde o início e sei o quanto ele lutou e ainda luta para levar a nossa música a um nível de reconhecimento merecido.
Parabéns a você Nice pelo seu blog e ao grande músico e bandolinista Aleh Ferreira.
Abraços, Lourdes Fraccaro
Oi Lourdes, tudo bem? Pois é, demorei um pouco para descobrir Aleh Ferreira, mas, depois que descobri, não largo mais..rsrs...Obrigada pela participação e pelo elogio ao blog.
bjs
Nice Pinheiro
Ficou,muito bom...Parabéns pela entrevista e ao Alexandre...Um abração!!!
Olá Toinho, que bom te ver por aqui! Obrigada pelo elogio e pela participação.
bjs
Nice Pinheiro
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